domingo, 25 de abril de 2010


Ainda me sobressalto com qualquer ruído na porta da sala, ainda acho que a qualquer momento você vai entrar por ali, como sempre antes, como se nada tivesse acontecido, como se o que aconteceu não tivesse importância. Pra mim já não tem mais, eu juro. Passo horas sentada no teu lugar no sofá, olhando a porta... E você não passa por ela. Então eu me levanto e continuo percorrendo a casa, ainda repleta da tua presença, como faço sempre desde que você se foi. É estranho não te ver ali. Mesmo depois de tanto tempo. Anos...
Comecei a ver os filmes que você sempre insistira para que eu assistisse junto contigo. Fico imaginando teus comentários, fico lembrando da tua mão na minha, minha cabeça no teu peito, tuas broncas porque cochilei numa parte que você achava importante, que faria toda a diferença para entender o filme, e eu sempre resmungando, querendo dormir um pouco mais. Nunca tinha pensado o quanto era importante pra você que eu participasse de tudo aquilo que você julgava realmente importante, ainda que fosse um simples filme. Nunca tinha entendido de verdade o quanto você queria compartilhar tuas coisas comigo. Você me abriu as portas do teu mundo e eu sempre achei que podia esperar para entrar, que elas continuariam abertas pra mim. Mas elas se fecharam.
Ainda folheio os livros que você deixou, mas não os leio. Doeria demais, mesmo depois de tanto tempo, passar os olhos pelas mesmas linhas por onde os teus passaram. E mesmo tendo passado tanto tempo, ainda acredito que você vai aparecer para buscá-los. Ou ligar avisando que vem. Dizer que posso ficar com eles, então, que você já colocou outros no lugar, que não tem importância. Será que nessa hora, se ela existir, vou aceitar, finalmente, que estou sozinha, ao contrário do que você tinha prometido que seria? Eu bem que queria...
Você deixou a camiseta da tua banda preferida em cima da cama quando saiu. Durmo com ela quase todas as noites como sempre gostei de fazer com tuas camisetas. O teu lado da cama continua com os dois travesseiros. Ainda deixo o cinzeiro no banquinho ao lado e sempre que vou dormir, levo tua água pro quarto. Ela amanhece intacta. Eu devia ter entendido o quão grandes eram os pequenos gestos que passam despercebidos, que acabam se acumulando no peito até virar nó na garganta e calar. Quando percebi, você já não tinha mais nada pra me dizer.
Umas das horas em que mais dói, tanto e uma dor tão funda que mesmo esses anos não conseguiram amenizar, é quando lembro do teu sorriso e dos teus olhos. Teus olhos de som e cor. Teus olhos que sempre sorriram junto com teu riso. Penso também no teu olhar de dor quando saiu... Tua dor era muda, escorria pelos teus olhos como pergunta silenciosa... Eu não faria nada para te impedir de ir? Eu não fiz... Achei que as noites de vinho, música e poesia no chão da sala não se perderiam nunca. Achei que tuas músicas para sempre falariam de nós. Achei que meus sorrisos, que você sempre gostou, iluminariam teus dias, sempre. Achei que você sempre saberia sem que fosse preciso eu dizer, por isso me calei tantas vezes. Perdoa...
Perdoa por eu ainda te esperar com o teu vinho guardado no armário da cozinha. Perdoa por manter tua escova de dentes ao lado da minha no espelho do banheiro. Tua toalha também continua ali. Organizei tuas músicas no arquivo do computador. Por ordem alfabética, assim fica mais fácil pra você encontrar o que quer. Eu nunca mais liguei o som. Ouço as músicas que sempre gostamos, as que você descobria e corria pra me mostrar, as que eu gostava e fazia você escutar, todas na minha lembrança. Elas ainda ecoam nítidas demais. Mesmo depois de tanto. Perdoa por não te mandar as coisas que eu escrevo, elas vão se acumulando por aqui.
Eu aprendi a trocar o gás de cozinha pra te impressionar quando você voltar. Coloco o café na tua xícara mesmo sem você nunca ter sabido que quando você saía, eu continuava tomando o café nela. Eu sempre te quis muito perto. Escrevo bilhetes e deixo na porta da geladeira para lembrar de regar as plantas como você queria. Parei de fazer dieta, não sinto mais fome mesmo, mas compro sempre teus queijos, tuas castanhas, tua cerveja. Você deixou coisas demais aqui pra não voltar.


ROSANA RIBEIRO
Novembro.2009
P/ Jean Luvisoto. Porque é pra sempre...como tudo de nós...e tudo o que foi feito pra durar...

Fica em mim, sempre, a sensação física de adoecer num rompante quando te vais, mesmo eu sabendo inevitável esse momento. Fica em mim, no corpo que nem tua fome e a minha consomem, o peso insuportável da tua presença ao avesso, porque estás aqui, não só dentro de mim, mas no único abrigo que julguei seguro para me esconder, para tentar me refazer das feridas que até mesmo você me causou. Fica em mim a fúria que já não contenho, tudo o que me ultrapassa, nada mais me delimita a não ser tua própria pele quando estás aqui... e estás sempre aqui... ainda que seja só tua sombra, teus pequenos rastros sutis...
Fica na garganta sempre o que é mais amargo, o que anestesia o paladar, porque neste caminho o gosto que conheço é o da tua saliva misturada à minha, o sal do teu suor, tua carne entre meus dentes. Desaprendi tudo o que não é você e que não me alimenta. Preciso do teu ar pra respirar, do contrário, morro em asfixia lenta e dolorosamente. E meu olhar se torna vago, esgazeado de dor à espera da tua imagem novamente nas minhas retinas. Minhas mãos vivem estendidas aguardando teu corpo morno, fonte e abismo, e cada vez que me perco em ti é quando mais me encontro inteira. Nada mais sei ser sem ti, fora de ti, nem mesmo metade.
Fica sempre aqui quando te vais a sombra pálida do que sou quando estou contigo. Nada existe que possa me resgatar do abismo que me lanças quando te vais, enquanto te espero, enquanto me calo e de olhos baixos evito que vejas que nada mais trago nas mãos, nem sonhos nem esperança...


24.Outubro.2009
P/ Jean Luvisoto. Por ser metade de tudo o que há em mim...Abimo pectore...pra sempre.

Sei de ti no extremo oposto desse outro mundo diverso que teima em tecer sua trama intrincada para nos manter cada qual no seu canto. Eu sei de ti porque tu me chegas inteiro e intenso a despeito da distância que muitas vezes insiste em se instalar entre nós. Eu sei de ti porque tu também me sabes, tu me sentes, eu te sinto como se o gestasse, então tu és meu, não o filho, mas o amor que surge visceral e imenso, e ainda que eu te parisse mil vezes, outras mil eu precisaria para que em mim tu fosses um pouco menos, tu me chegasses menor em fúria e necessidade, em mim tu habitasses algumas frestas a menos. Seria preciso que o tempo existisse de uma outra forma, que os dias que se transformam em semanas, as semanas em meses, os meses em anos, desintegrassem as memórias do que foi vivido a ponto do passado tornar-se página em branco. Ainda assim, em mim tu serias sempre instintivo, ainda que eu não o recordasse de todo em completa nitidez de fatos, tu me serias, como serás para sempre, o meu norte, meu guia, tudo aquilo que me define, o que é em mim definitivo, imutável. Em mim tu és o ponto final das minhas incansáveis buscas, aquele que me completa e me deixa repleta de sentido. Tu és quem eu sempre busquei, antes mesmo de nos descobrirmos...

P/ Jean Luvisoto. Porque todas as palavras conhecidas são rasas, pequenas, para sintetizar o quanto há em nós... Abimo pectore.

Chovia. Chovia torrencialmente naquela noite. A fúria do mundo na água que caía do céu cinza-chumbo. Ela olhava tudo pela janela. O vidro começando a embaçar. Ela parada no mesmo lugar sem saber ao certo quanto tempo havia se passado. E o que importava? Nem o tempo nem o fato de permanecer no mesmo lugar. Não agora. Não mais há algum tempo. Estava ali sem saber se olhava para a enxurrada correndo rente à calçada da rua ou os carros que passavam lentos. Era como se o mundo chorasse junto com ela a sua própria perda, do lado de fora da sua janela, da sua vida, seu consolo e alívio eram aquela tempestade, os raios e trovões gritando quando ela há muito tinha esgotado suas forças. Na fúria natural do mundo encontrava eco para seu grito mudo.
Seus pés descalços sentiam o frio do piso como se ele pudesse penetrar nos ossos. Saiu de perto da janela, tateando sobre a mesa próxima o maço de cigarros e o isqueiro. Ao seu redor a escuridão era entrecortada pelos relâmpagos...as luzes que iluminavam a rua...tudo lá fora...
Sentada no sofá, sabia de cor, mesmo no escuro, que uma parte da parede estava descascada, logo embaixo do beiral da janela. Na floreira da mesma janela as plantas mortas jaziam encharcadas pela água da chuva que caía há dias sem cessar. Pelas paredes da casa seus medos escorriam deixando marcas amareladas por onde passavam, como se fossem arranhões profundos, embora ela soubesse que dessa vez nunca cicatrizariam. A cidade se parecia com ela: sempre cinza, sem qualquer espaço para um céu limpo e o vento sempre se encarregava de levar mais alguma coisa que acreditava haver sobrado pra si. Dali a pouco nada mais.
A água da chuva que caía lá fora não entraria dentro da sua sala, era certo. E nem era preciso mesmo. As suas lágrimas misturavam-se aos medos. Tudo escorria pelas paredes, pelo piso sob seus pés. Inundavam tudo. Era uma náufraga de si mesma.
Ao seu lado no sofá, além do cinzeiro cheio, a caixa. Laço de fita desfeito várias vezes, refeito outras tantas. Sobrava sempre a caixa destampada... E lá dentro, o vazio, um imenso nada: o seu dia. Depois que ele se fora, nunca soube o que fazer com o seu dia. Então ele ficava li, inerte como ela, sem sentido como ela, inútil como todo o resto naquela casa, até mesmo ela. Ele jazia ali ao seu lado naquela sala inundada enquanto o mundo parecia desabar lá fora. Irremediavelmente.


Rosana Ribeiro
12.janeiro.2010

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Carícia


Este é um texto de um escritor paulistano do qual sou mais uma fã! Parabéns Eduardo Bszczyn!

Azar. O arame farpado sempre esteve debaixo da minha pele. No mesmo lugar. Há os que nunca descobrem e vão embora. Mas há os que, na falta de sorte, se cortam cedo. Rasgam o dedo na primeira carícia.

http://coisasdagaveta.blogspot.com

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Da tua entrega


Me entrega tuas mãos e eu te prometo através delas fazer surgir o caminho para nos conduzir, a estrada há tanto ansiada, pois ela já existia antes mesmo de nos darmos conta. O que hoje existe de nós e em nós nos é ancestral. Íngreme e escarpada é essa estrada, mas a única garantia é estar ao teu lado, independente de tudo aquilo que possamos encontrar no fim do caminho, o que quer que exista lá, nos encontrará de mãos dadas.
Me entrega teus sonhos e eu te prometo fazer deles, junto dos meus, algo tão real a ponto de tocá-los antes mesmo que eles sejam concretos, construção feita de asas, um tanto de medos e uma fé que não se mede nem se explica.
Me entrega teu corpo, meu vasto deserto, imenso e morno, porque todos os mistérios da minha vida inteira reúnem-se na extensão da tua pele, se materializam em cada poro teu, estendem-se diante de mim numa oferta irrecusável, pois acima e além de tudo o que possa ser o teu prazer e o meu, há todos os segredos que sintetizam o sentido do que me faz ser e estar.
Me entrega teu silêncio, tudo aquilo que sempre te pesou, para que juntos possamos libertar da própria clausura o que nos prendeu, o que há tanto nos faz prisioneiros do injustificável, do que hoje nos é inaceitável. Me entrega teu silêncio, pois longe do desconcerto, ele me conforta. Teu silêncio me acolhe em braços há muito esperados. Teu silêncio meu diz muito mais de você que todas as palavras que ensaias pra dizer e nunca dizes.
Me entrega teus medos, e ainda que eu não saiba o que fazer ao juntá-los aos meus, te prometo a coragem que só existe com a tua presença absurdamente necessária em todas as horas dos meus dias. Sem você, eu não teria dado sequer um passo na direção de tudo aquilo que foi capaz de modificar toda a minha existência, pois antes de ti, o que havia era uma sobrevida. Hoje, o que é pleno de sentido se confirma quando minhas mãos te tocam, quando meus olhos me vêem refletida nos teus, quando teu ar escapa dos teus pulmões para que eu respire melhor e viva, para você, por você, simplesmente porque o que existe de mim necessita de ti para resistir, porque não existe nenhuma saída para nós, não há qualquer vão pelo qual possamos escapar de nós, ainda que tenhamos tentado à exaustão. Nos fomos fatais, inescapáveis. Fomos um para o outro o que tínhamos que ser. E ainda somos. Seremos sempre. Corpo e alma. Pele, presença e amparo. Porto, escudo e descanso. Espelho e abismo onde atiramos toda a nossa pouca fé.
Me entrega tua vida, pois é somente com tudo aquilo que tens que conseguirei me reconstruir depois de me perder em ti, me desfragmentar em todos os pedaços que colhes nas tuas manhãs repletas da sequência de horas iguais, vazias de sentido sem que dos meus olhos retire a certeza da tua espera finda.
Me entrega teus olhos, de som e cor, que há muito fiz deles meus guias nas noites escuras, quando nada havia para me fazer voltar a crer além do brilho deles. Me entrega teus olhos para serem meus espelhos, para que os meus não tenham receios de te mostrar minha própria entrega absoluta. Me entrega teus olhos...para que por eles minha alma repleta de ti possa ser de nós o que realmente existe de maior.


Rosana

P/ Jean Luvisoto. Abimo pectore. Sempre. E pra sempre.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009


Procurei tantas formas pra dizer, na verdade, usei todas as que conhecia, e algumas que eu só tinha ouvido falar. Testei todas. Todo esse tempo. Nenhuma surtiu efeito. Todas deram errado. Ou será que fui eu quem não as disse de um jeito certo?
Te avisei dos passos em falso. Dos tropeços. Você justificou dizendo que talvez fosse assim mesmo. Mas eu sabia que não. Não era pra ser. Não vindo de nós. Mas, afinal de contas, o que tínhamos de tão especial? Você não disse nada. Nem entendeu. Desatento, passou ignorando as vírgulas, os pontos de exclamação, as reticências quando eu já estava cansada demais para continuar tentando. Você ignorou até mesmo meu esforço durante tantos e tão longos anos... Tudo bem...
Sei que você viu o copo transbordar, isso você não vai negar. Você notou o tremor das minhas mãos mesmo quando tentei disfarçar. Você viu a distância se instalar, de maneira abrupta muitas vezes. Você estava lá, vendo minhas mãos estendidas à espera de ajuda. Você não se moveu. Observou impassível meu desespero, meu descontrole, todo os meus temores. Você ouviu todos os clamores, todos os chamados, os pedidos apavorados. Você viu meus olhos esgazeados de dor e olhou para o outro lado. Você me deixou sangrar sozinha uma dor que me fez acreditar que era também a tua. Você se tornou o fatal punhal cravado nas minhas costas. Seguiu enquanto eu agonizava. Sorriu para o mundo quando eu já não acreditava ter mais nenhuma lágrima para derramar. Você me condenou por pecados que há muito eu já havia me redimido por não os ter cometido. Você mentiu. E me deixou sozinha como disse que eu nunca estaria.
Você tomou nos braços outro corpo que não o meu, sepultando sonhos que antes dera asas para voar junto aos teus. O teu poder de destruição foi gigantesco... Você devastou um mundo inteiro que construí para te esperar. Você se manteve no mesmo lugar sem se importar. Tornou-se surdo aos gritos lancinantes e aos apelos mudos. Tornou-se cego ao que ofereci mesmo quando dizia que era tudo o que queria, era tudo o que precisava pra seguir, era tudo o que eu tinha. Você deixou que acreditasse no que não existia, maculou o universo que da dor eu reerguia. Pra você, eu destruí todos os muros e no lugar, construí pontes para que você pudesse atravessar em segurança.
Você continuou seguindo o teu caminho. Mas deixou aqui teu rastro, tua sombra, um amontoado de cacos, estilhaços pontiagudos de um espelho que não mais refletia tua imagem. Você me deixou soterrada por escombros, perdida num mundo que eu já não reconhecia, você levou de mim tudo o que havia. E agora, o que espera que eu diga?



Rosana Ribeiro



"...Já te matei mais de mil vezes
Mas teu amor sempre me vem
Então me diga quantas vidas você tem?..."

quinta-feira, 29 de outubro de 2009


Será o grito a medida do abismo?
Por isso grito sempre que cismo
Sobre essa vida tão louca e errada...
Que grito inútil!
Que imenso nada!...


Vinícius de Moraes

quarta-feira, 28 de outubro de 2009


Tudo o que aqui escrevo
A tua mente acompanha
Sem sons
Sem olhares
Sem presença física.
Todos os dias fico no meu canto
Aguardando a chegada dos teus braços
Para que desembarques no meu peito.
Amo a única coisa que todos odeiam
A forma como desarrumas as minhas manhãs
As minhas tardes
As minhas noites
Os minutos e até os segundos.
Neste momento sorris.
Um sorriso desenhado pela ansiedade
De receber mais projeções dos meus sentimentos
Dos meus pensamentos
Telepaticamente ligados...
Nós...

Sérgio Minhós

Que tu venhas a mim com tuas mãos de flores e delicadezas pra entregar todos os teus medos, tuas dores, o assombro de que foram feitas tuas noites antes de te fazer aqui. Que tuas mãos, que me buscavam há tanto, antes mesmo de chegar, tenham a certeza de que encontrarão as minhas após uma espera que foi eterna pelo tempo que se arrastou lento demais. Que teus temores finalmente repousem com os meus sob os nossos pés exaustos das longas estradas sem nós dois juntos.
Que teu corpo venha a mim com fome e fúria, violência e despudor, sede como de uma ressaca de mil mares. Dar-te-ei de beber de mim, pranto e gozo, fonte e alívio. Alimentar-te-ei de mim, mas nunca a ponto de saciar tua fome, nunca a ponto de sentires que já estás farto. Eu alimentarei a tua fome. Que para o teu corpo o meu seja o porto, o descanso, o abismo onde mergulhas para poder te encontrar e me resgatar repleta de ti. Que meus seios acolham tuas lágrimas e teus lábios. Que eu seja muito mais que sonho, por ser real e estar ao teu alcance. Faz-me tua de verdade. E para sempre.
Que teus risos ecoem por toda a minha volta. Farei de todos eles juntos um hino sempre novo, e com eles inventarei canções para velar teu sono quando teus medos se fizerem maior que meus braços e tentarem te assombrar. Eu estarei ali a te embalar.
Que teus sonhos encontrem espaço e asas no ar que vai nos rodear finalmente juntos. E que voem. E que se libertem de ti, que se alimentem da luz que há em ti para se tornarem reais. Vou estar ao teu lado para assistir. E eu acreditarei em todos eles, talvez bem mais que você, por isso nunca permitirei que os deixe apodrecer guardados na tua alma. Eles merecem existir.
Que teus olhos me reflitam sempre, antes de serem as janelas pelas quais tu deixas um pouco da tua alma atravessar, eles são meu espelho e é só neles que me vejo real. É neles que existo para ser quem sou, sem disfarces, nua também na minha alma para você.
Que eu saiba te dizer e te fazer entender, em todos os dias do nosso para sempre, que tudo o que quero é aquilo que entrego a você. Eis minha prece.



Rosana 27.outubro.2009
Para Jean Luvisoto. Por ser o que de maior existe em mim. Definitivamente. Pra sempre. Abimo Pectore.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009


"...E hoje quando amanhece o sol
Abro a janela pra chuva
Que coincidência: tua mão
Não cabe mais na minha luva
O que aconteceu com o futuro que morreu?
Ou nunca existiu?
Você nem olhou pras coisas que admiro
E nem me ouviu
Mas era eu quem te chamava com meu último suspiro
O que aconteceu com o futuro que se perdeu?
O que aconteceu com o meu futuro que era o teu?
Nunca foi tarde..."


Paulinho Moska

Pra Esquecer


Com um movimento lento, afastou a xícara com café dos lábios. O olhar, já tão vago, tão vazio, permanecia no mesmo ponto fixo. Fixos. Fixados apenas num determinado ponto porque nem mesmo tinha vontade de movimentá-los. Ao redor tudo era igual. Nada mudava. Então seus olhos também permaneceriam parados. Não buscariam mais. Não fitaria mais nada com a avidez de antes, de um dia, foi há tanto tempo!... Um tempo que deixara também de contar. As horas continuariam a passar, transformariam-se em dias, os dias acabariam por se tornar semanas; as semanas, meses; os meses, anos. Contar a lentidão com que elas passavam não alteraria em nada seu curso... Ela acabara por compreender isso.
Tornou a colocar café na xícara. Sempre pela metade. Foi isso que sua vida se tornara. A metade de algo. Nunca até o fim, até o fundo. Era sempre um meio-termo evitado por tantos anos como algo execrável e agora se fazia ali, em sua vida, era a sua vida e ponto. Perdera tanto tempo, tantos anos em lutas inglórias que nada restou de força para que pudesse ir contra o morno.
Fazia sempre a mesma coisa nas manhãs. Sentava-se diante da porta, xícara de café entre as mãos, ora entrelaçadas como que a abraçar o recipiente com o líquido quente, ora frouxas, perdidas também, tão perdidas ao longo do corpo quanto ela própria. Passava o tempo todo com os olhos fixos na porta, como agora. Antes, os olhos corriam, buscavam a presença, um sinal, qualquer coisa que pudesse denunciar a chegada dele. Nunca mais. Ela não tinha mais esperança. Mas ficava ali simplesmente porque não sabia mais fazer outras coisas. Seus passos desaprenderam qualquer caminho. Então ela se deixou ficar ali. Não sabia como fugir de tudo aquilo. Será que algum dia a fuga fora possível? Ela não saberia dizer... Se houve a chance de escapar, ela perdera. Por isso permanecia ali.
Ainda fazia mais café do que na verdade queria ou agüentava beber. Mas acostumara-se à companhia dele para o café, daí o exagero. O excesso. Nada, nunca, dela para ele era menos. Tudo era excessivo, desenfreado, incontido. Já havia tentado fazer menos café. Já havia tentado não ficar ali sentada naquele sofá com os olhos fixos na porta. Mas não conseguira. Não conseguira ir além dali. Além dos dias iguais e vazios de sentido.
Algumas vezes percebia que as mãos tremiam e o coração sobressaltava-se como se a pressentir a chegada dele. Ela, na verdade, podia mesmo sentir o quão perto ele parecia estar. Mas acabava se convencendo que era tudo uma bobagem. Sim, ele realmente estava muito perto, mas porque estava dentro. Dentro de si. Rendera-se também a esse fato.
Queria tanto poder abrir as janelas para que o ar puro entrasse, livrando-a daquela atmosfera pesada de café indigesto, e muitas vezes morno, e cigarros. E lembranças. E inércia. E medo. Sabia de tudo. Tinha plena consciência de tudo o que acontecera, tudo o que permitira. É por isso que temia. Não queria ter que encarar o que se tornara. Não queria ter que encarar o que sobrara. Não queria enfrentar os cacos que se colocavam diante dela, pontiagudos, espalhados pelo chão ao seu redor. Os cacos eram como espelhos. Os milhares de pedaços de espelho refletiriam ela. E suas lembranças. E os olhos dele. E tudo o que lançaram ao chão porque, ao contrário do que imaginavam, fora tanto que não puderam reter em si, não puderam manter para si. Não suportava, ainda, nem mesmo pensar em olhar à sua volta. Doía tanto ainda. Talvez doesse para sempre. Por isso permanecia ali, a maior parte do tempo, de olhos fixos no vazio. De vez em quando, fechava os olhos para esquecer...



Rosana 25.outubro.2009
Para Jean Luvisoto. Sempre. Pra sempre. Definitivamente. Abimo pectore.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Do que somos


Gosto do cheiro das tuas mãos entre as minhas, como se me contassem em aroma que o lugar delas é ali, entrelaçadas, unidas numa promessa muda de constância e permanência.
Gosto do cheiro do teu corpo morno, mistura de sal e sol, que vai se desprendendo da tua pele ao meu toque, enquanto meus dedos percorrem o que sei vasto, o que levaria mil anos e um pouco mais para acreditar real, ainda que já saiba meu pela tua entrega muda. Tomo posse de ti a cada dia e consentes sempre mais sem nada dizer. Tu me mostras em cada poro, a cada eriçar de pêlos, que esteve sempre a minha espera, teu porto de sempre, a tempestade que temes e ainda assim enfrentas. Temes por teu pouco fôlego para o meu mar, mas eu te digo com meus olhos para que sigas, para que sejas em mim o tempo que apazigua a revolta, a ressaca da ausência. Que tu sejas de mim e em mim, fome e fúria que nunca saciam, torpor que se instala lentamente nas veias no enquanto. Enquanto estás ali. Enquanto estou ali. Que tu finalmente sejas a promessa que não cumpriste, que me resgate da rua deserta no meio da chuva na qual me deixaste. Que tu cubras minhas feridas com tua saliva. Que me sangres apenas pra ti, para que te alimentes da minha vida, do que me transborda, do que já é impossível conter. Que tu sejas de mim e eu de ti, o indivisível, o maior, doença e cura, sanidade e loucura, o início e o fim, a extensão inevitável do corpo e da alma, o que sempre fora desde então. Que tu sejas de mim e eu de ti o inegável fato, o que não se consome, busca e encontro, o inesgotável, a certeza que só se tem ao se viver um amor tão grande assim.


Rosana 23.outubro.2009
Para Jean Luvisoto. Pela grandeza de tudo aquilo que somos juntos...Abimo pectore, pra sempre.

Do Vazio


Hoje trago os olhos vazios de promessas, cansados de fitar o cinza da ausência, de contemplar o deserto estendido diante de mim. Tudo é desolação e solidão. Minhas terras se tornaram extensões estéreis e áridas. Nada vinga no campo que deixaste à míngua. Nem flor nem erva daninha. Tudo vem morrendo à minha volta. Tudo o que um dia toquei, desfez-se como miragem, areia escorrendo por entre meus dedos e perdendo-se num tempo de nunca mais.
Meus pés seguem descalços, desaprenderam o rumo tão acostumados estavam em te seguir, jamais pensaram em trilhar outro caminho que não o mesmo que teus pés também descalços como pássaros num vôo em sincronismo. Hoje eles pisam cacos de tudo aquilo que ontem ainda era tão maior que eu mesma, era real, ontem ainda estava ali, eu mesma podia tocar, manter guardado à tua espera para que pudesse te escutar proclamando o fim da nossa clausura, repetindo o que sempre me fora sagrado ouvir, como se, ao me dizer, da tua boca saísse a certeza do final do meu caminho, o sentido, teu amor sempre fora meu maior e mais caro tesouro... Olho em volta e tudo ao meu redor é um monte de estilhaços pontiagudos que me ferem tão fundo por mais que eu permaneça imóvel neste quarto escuro em que me deixaste pra sangrar sozinha... Pra me olhar sozinha num espelho que não mais reflete tua imagem do outro lado. Coberta de cortes... Retalhada em postas... Nenhuma cicatriz... O sangue nunca vai parar de jorrar, vai continuar exposto espalhando o odor fétido de dor e desespero, um grito mudo, nó na garganta, olhos vítreos de quem morre por dentro e continua de pé. Os dias passam assim. Seguem sucedendo uns aos outros, formam os meses, vão tornar-se anos, são uma longa noite onde não existe mais o brilho dos teus olhos de som e cor pra me guiar. Sei que me perco mais e mais e nada há que eu possa fazer para ao menos me encontrar. Nenhuma fresta por onde eu poderia ter escapado nem mesmo há tempos atrás. Você ocupou todos os espaços, dentro e fora de mim.
Minhas mãos não se estendem mais pois conformaram-se com o vazio de não te encontrar. As lutas foram todas inglórias. Nenhuma vitória houve. Minha cama tornou-se uma lápide onde jaz meu corpo frio de nunca te saber ali. Lentamente, vou morrendo em asfixia pelo teu cheiro de sal e sol que invade meus pulmões. Sem tua pele morna sob meus dedos, eles foram se petrificando, tornaram-se mais uma parte morta de mim. Meus olhos, hoje vazios, de promessas e sonhos, de planos e esperança, fitam o nada, esperam pelo golpe de misericórdia. Esperam pelo fim.


Rosana 22.outubro.2009
Para Jean Luvisoto.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Do Outro Lado


Deitado em sua cama, ele olhava o teto enquanto sentia-se oprimido pelas paredes do quarto. Parecia que ultimamente nenhum lugar o comportava. Seu pensamento vagava, embora diversas vezes tentasse evitar que chegasse à única lembrança que agora se esforçava para esquecer, mesmo sabendo que seria em vão, já que aqueles olhos, de uma cor indefinida entre o verde e o castanho, insistiam em se mostrar a cada vez que fechava os seus.
Então deixou que ela o invadisse de vez, talvez assim fosse mais fácil acabar com as recordações. Não sabia de onde ela havia surgido, mas irrompeu em sua vida com força e violência típicas dos acontecimentos inesperados. A imagem da mulher segura não condizia com os sentimentos de menina quando ela se mostrava indefesa para ele, sempre pronta para ele, sempre ávida por ele. Adorava as ruguinhas que se formavam ao redor de seus olhos quando ela sorria...
Sorriu diante dessa lembrança quando o desejo o invadiu. Pensou no corpo branco e quase frio enquanto ele não a aquecia. Pensou na maciez da pele, na entrega absoluta com que ela se oferecia inteira para ele, corpo e alma, mente e coração, impossível não querer mergulhar de uma só vez dentro daquele corpo que lhe trazia alívio e do qual ele não tinha a mínima vontade de se ausentar, da mistura dos cheiros, dos pensamentos e sentimentos que atropelavam os dois com a velocidade da luz. Aquele corpo branco, cálido, era seu abrigo, sabia disso embora tentasse dissimular e negasse o fato até mesmo para si. Aquela mulher era seu maior inferno, tudo o que sempre temera se personificava nela. Tudo o que sempre desejara se encontrava nela, que se entregava numa oferta muda.
Impossível descrever alguém como ela. Era apenas ela, com sua bagagem de perdas e danos ao longo dos anos que já vivera. Era única. E povoava seus pensamentos, seus sonhos, sua cama, seu mundo, seu vazio. Ela descobrira sua solidão e não se assustou, pois era tão só quanto ele e seu mundo também era repleto de fantasmas e sombras.
Tudo de mais improvável acontecera. Tudo de doloroso e cruel os jogara de volta à realidade, que no fundo era tão simples de ser resolvida, embora ele mesmo não enxergasse um caminho adequado para que sua vida voltasse a ser exatamente igual ao que era antes que aquela mulher surgisse na sua frente no final de uma tarde tediosa e frustrante da sua rotina.
A força com que os dois enfrentaram o mundo não fora suficiente para que ela desistisse de ficar na sua vida nos primeiros dias. Mas para sua surpresa, mais uma vez, ela jogou tudo para o alto e abandonou o que não queria mais, o que não entendera nem conseguia lidar. Simplesmente fora embora e ele nem mesmo tentou detê-la. Era determinada demais, passional demais, forte demais até mesmo quando demonstrou sua fraqueza, suas lágrimas e sua impotência diante dele uma única vez.
Não sabia onde ela estava agora. A noite estava nublada e fria. O quarto o oprimia e não havia nenhum lugar para onde ir ou onde quisesse estar. Só sabia que a queria perto, mesmo que fosse para compartilhar o silêncio como tantas vezes. Tinha medo de admitir para si mesmo que ainda a queria, desgraçadamente, quase como uma doença sem cura. Queria estender sua mão e toca-la, mas a cama estava vazia. Queria ter a coragem que ela acreditou que tivesse para poder ao menos dizer a ela da necessidade brutal que sentia da sua presença, só para saber que estava ali, com aquele olhar meio infantil e seu sorriso inseguro. Queria não ter que saber de tudo isso, queria estar do outro lado, queria ter dito a ela que o esperasse, que um dia todo o tumulto em seu coração se acalmaria. Queria apenas que ela soubesse que ainda a amava hoje, mas sequer sabia onde estava.

Rosana Ribeiro 2005
Para Jean Luvisoto.